FORMAÇÃO DOCENTE PARA O USO CRÍTICO E INOVADOR DAS TECNOLOGIAS: ENTRE DESAFIOS, COMPETÊNCIAS E TRANSFORMAÇÃO PEDAGÓGICA
Em uma
sociedade cada vez mais mediada pelas tecnologias digitais, discutir a formação
docente para o uso crítico, ético e inovador das tecnologias tornou-se não
apenas necessário, mas urgente (BRASIL, 2024; BRIEN, 2025). A presença de
plataformas digitais, inteligência artificial, ambientes virtuais de
aprendizagem e recursos interativos no cotidiano escolar exige do professor
muito mais do que domínio técnico, ou seja, requer postura reflexiva,
sensibilidade pedagógica e capacidade de transformar tecnologias em instrumentos
de construção do conhecimento (VANEGAS et al., 2025).
Nesse sentido,
a formação docente precisa superar perspectivas meramente instrumentalistas,
centradas apenas no aprendizado operacional das ferramentas digitais (ODELSKI;
GIRAFFA; CASARTELLI, 2019). O desafio atual está em promover uma formação
crítica, capaz de articular inovação tecnológica, intencionalidade pedagógica e
compromisso social (CUSTÓDIO; RODRIGUES, 2023). Como destacam Custódio e
Rodrigues (2023), o papel do professor formador é essencial para o
desenvolvimento do pensamento crítico e da cidadania digital, especialmente na
formação inicial de professores.
Essa
discussão ganha ainda mais relevância diante das recentes diretrizes
educacionais brasileiras (BRASIL, 2024). A Resolução CNE/CP nº 4/2024
estabelece princípios voltados à integração das tecnologias digitais na
formação docente, enfatizando competências relacionadas à cultura digital, à
ética e à inovação pedagógica. Essa Resolução evidencia que a formação de
professores deve contemplar não apenas o acesso às tecnologias, mas também sua utilização
crítica, criativa e contextualizada nos diferentes cenários educacionais
(BRASIL, 2024).
Entretanto,
a incorporação efetiva das tecnologias nas práticas pedagógicas ainda enfrenta
inúmeros desafios (ODELSKI; GIRAFFA; CASARTELLI, 2019). Odelski, Giraffa e
Casartelli (2019) apontam que muitos professores encontram dificuldades
relacionadas à falta de formação continuada, infraestrutura inadequada e
insegurança quanto ao uso pedagógico dos recursos digitais. Tais obstáculos
demonstram que a transformação educacional não depende exclusivamente da
presença das tecnologias nas instituições, mas principalmente das condições
oferecidas para que os docentes possam desenvolver competências digitais de forma
integrativa (ODELSKI; GIRAFFA; CASARTELLI, 2019).
Além
disso, compreender os fatores que influenciam a adoção das tecnologias pelos
professores também se torna fundamental (SCHERER; SIDDIQ; TONDEUR, 2019).
Scherer, Siddiq e Tondeur (2019), ao analisarem o Modelo de Aceitação de
Tecnologia (TAM), evidenciam que a percepção de utilidade e facilidade de uso
influencia diretamente a integração das tecnologias no contexto educacional.
Isso significa que professores tendem a utilizar mais frequentemente
ferramentas digitais quando percebem relevância pedagógica e sentem-se
preparados para utilizá-las em suas práticas (SCHERER; SIDDIQ; TONDEUR, 2019).
Nessa
perspectiva, a formação docente precisa ser contínua, colaborativa e alinhada
às transformações sociais e tecnológicas (BRIEN, 2025). O autor destaca ainda, que
o desenvolvimento profissional voltado à transformação digital na educação deve
considerar processos formativos integrados, capazes de promover mudanças
culturais nas instituições de ensino. Mais do que capacitações pontuais,
torna-se necessário construir ecossistemas formativos sustentáveis, nos quais
os professores possam experimentar, refletir, compartilhar experiências e
inovar pedagogicamente (BRIEN, 2025).
Da mesma
forma, Vanegas et al. (2025) ressaltam que as competências digitais docentes
envolvem aspectos técnicos, pedagógicos, comunicacionais e éticos. Segundo os
autores, a formação para o uso das tecnologias deve contemplar habilidades
relacionadas à colaboração, resolução de problemas, pensamento crítico e
produção de conteúdos digitais, fortalecendo práticas pedagógicas mais
criativas e participativas (VANEGAS et al., 2025).
Assim,
pensar a formação docente para o uso crítico e inovador das tecnologias implica
reconhecer que educar na cultura digital exige novos olhares sobre o ensinar e
o aprender (CUSTÓDIO; RODRIGUES, 2023; BRASIL, 2024). O professor deixa de ser
apenas transmissor de conteúdos para atuar como mediador, designer de
experiências de aprendizagem e agente de transformação social (VANEGAS et al.,
2025). Nesse cenário, as tecnologias não devem ocupar o centro do processo
educativo, mas funcionar como possibilidades de ampliar a interação, a autoria,
a criatividade e a construção coletiva do conhecimento (ODELSKI; GIRAFFA;
CASARTELLI, 2019).
Dessa
forma, investir na formação docente para o uso crítico das tecnologias
significa investir em uma educação mais humana, democrática e conectada às
demandas do século XXI (BRASIL, 2024; BRIEN, 2025). Em tempos de rápidas
mudanças tecnológicas, formar professores críticos, reflexivos e inovadores é
um dos caminhos mais promissores para fortalecer práticas pedagógicas capazes
de transformar realidades e promover aprendizagens mais significativas
(CUSTÓDIO; RODRIGUES, 2023; VANEGAS et al., 2025).
Aprofundamento do problema:
formação docente e uso crítico das tecnologias digitais
1. Como as Diretrizes
Curriculares Nacionais e os referenciais teóricos sobre formação docente
abordam o uso crítico, ético e inovador das Tecnologias Digitais na formação de
professores?
As Diretrizes Curriculares Nacionais
para a formação docente evidenciam que o uso das Tecnologias Digitais deve
estar articulado ao desenvolvimento de competências relacionadas à cultura
digital, à ética, à inovação pedagógica e à mediação crítica do conhecimento
(BRASIL, 2024). A Resolução CNE/CP nº 4/2024 reforça que a formação inicial e
continuada dos professores deve contemplar práticas pedagógicas capazes de
integrar tecnologias de maneira contextualizada, reflexiva e alinhada às
demandas sociais contemporâneas (BRASIL, 2024).
Os referenciais teóricos da área também
defendem que a formação docente não pode limitar-se ao domínio técnico das
ferramentas digitais, mas precisa promover uma compreensão crítica sobre os
impactos sociais, culturais e educacionais das tecnologias (CUSTÓDIO;
RODRIGUES, 2023). Nesse sentido, o professor deve ser preparado para atuar como
mediador do conhecimento, utilizando recursos digitais para fortalecer a
autonomia, a criatividade, a participação e o pensamento crítico dos estudantes
(VANEGAS et al., 2025).
Além disso, estudos apontam que a inovação
pedagógica depende diretamente da formação contínua e da construção de
competências digitais docentes que envolvam aspectos técnicos, éticos,
pedagógicos e comunicacionais (BRIEN, 2025; VANEGAS et al., 2025). Dessa forma,
as tecnologias passam a ser compreendidas como instrumentos de transformação
das práticas educativas, e não apenas como recursos acessórios utilizados em
sala de aula (ODELSKI; GIRAFFA; CASARTELLI, 2019).
2. Quais contradições podem
ser identificadas entre o que as políticas propõem e o que é colocado para os
professores em formação?
Embora as políticas educacionais
defendam uma formação crítica e inovadora para o uso das tecnologias digitais,
muitas instituições formadoras ainda desenvolvem práticas fragmentadas e
excessivamente tecnicistas (ODELSKI; GIRAFFA; CASARTELLI, 2019). Em muitos
casos, os professores em formação recebem orientações voltadas apenas ao uso
instrumental das ferramentas digitais, sem aprofundamento sobre ética digital,
pensamento crítico, inclusão tecnológica e inovação pedagógica (CUSTÓDIO;
RODRIGUES, 2023).
Outra contradição relevante refere-se às
condições estruturais e institucionais oferecidas aos docentes e estudantes.
Embora os documentos oficiais proponham integração das tecnologias no currículo
e nas práticas pedagógicas, muitas instituições ainda enfrentam limitações
relacionadas à infraestrutura tecnológica, acesso à internet, ausência de
formação continuada e escassez de investimentos educacionais (BRASIL, 2024;
ODELSKI; GIRAFFA; CASARTELLI, 2019).
Além disso, existe uma discrepância
entre as exigências colocadas aos professores e o suporte efetivamente
oferecido para que eles desenvolvam competências digitais (SCHERER; SIDDIQ;
TONDEUR, 2019). Muitos docentes são pressionados a utilizar tecnologias digitais
de maneira inovadora, mas não recebem acompanhamento pedagógico, tempo
institucional ou formação adequada para desenvolver segurança e autonomia nesse
processo (BRIEN, 2025).
Também se observa que, apesar do
discurso sobre inovação, diversas práticas formativas ainda permanecem
centradas em modelos tradicionais de ensino, nos quais o estudante ocupa
posição passiva no processo de aprendizagem (VANEGAS et al., 2025). Isso
evidencia uma incoerência entre os princípios defendidos pelas políticas educacionais
e as experiências efetivamente vivenciadas pelos futuros professores.
3. O que precisaria mudar na
formação docente, nas práticas pedagógicas e nas políticas educacionais para
promover um uso crítico, mediado e inovador das tecnologias digitais?
Para promover um uso crítico, mediado e
inovador das tecnologias digitais, a formação docente precisa ser repensada de
maneira mais integrada, contextualizada e permanente (BRIEN, 2025). Isso
implica superar modelos formativos baseados apenas em treinamentos técnicos e
investir em processos que articulem teoria, prática, reflexão crítica e
experimentação pedagógica (CUSTÓDIO; RODRIGUES, 2023).
As práticas pedagógicas também precisam
avançar em direção a metodologias mais colaborativas, interativas e centradas no
protagonismo dos estudantes (VANEGAS et al., 2025). O uso das tecnologias deve
favorecer a autoria, a resolução de problemas, a construção coletiva do
conhecimento e o desenvolvimento do pensamento crítico, evitando práticas
reducionistas que utilizam recursos digitais apenas para reprodução de
conteúdos (ODELSKI; GIRAFFA; CASARTELLI, 2019).
No âmbito das políticas educacionais,
torna-se fundamental ampliar investimentos em infraestrutura tecnológica,
conectividade, valorização docente e programas permanentes de formação
continuada (BRASIL, 2024). Além disso, é necessário que as políticas públicas
considerem as desigualdades regionais e sociais presentes nos sistemas
educacionais, garantindo condições reais para que escolas e universidades
possam desenvolver práticas pedagógicas inovadoras e inclusivas (BRASIL, 2024).
Outro aspecto importante refere-se à
necessidade de fortalecer a cultura digital crítica na educação (CUSTÓDIO;
RODRIGUES, 2023). Isso significa formar professores capazes de analisar os impactos
éticos, sociais e culturais das tecnologias, especialmente em um cenário
marcado pela expansão da inteligência artificial, pela circulação massiva de
informações e pelos desafios relacionados à desinformação e à cidadania digital
(VANEGAS et al., 2025).
Assim, promover uma formação docente
voltada ao uso crítico e inovador das tecnologias exige mudanças estruturais,
pedagógicas e culturais. Mais do que inserir recursos digitais nas instituições
de ensino, é necessário construir práticas educativas humanizadas, reflexivas e
socialmente comprometidas, capazes de transformar as tecnologias em
instrumentos de emancipação, participação e construção coletiva do conhecimento
(BRIEN, 2025; CUSTÓDIO; RODRIGUES, 2023).
Referências
BRASIL.
Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP nº 4, de 29 de maio de 2024.
Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/cne/pdf/resolucoes-do-cne/cp/2024/rcp004_24.pdf.
Acesso em: 18 maio 2026.
BRIEN, E.
A. Professional learning to support digital transformation and change in
education: an integrated, systematic literature review. Journal of
E-Learning and Knowledge Society, v. 21, n. 1, p. 148-158, 2025. Disponível
em: https://www.je-lks.org/ojs/index.php/Je-LKS_EN/article/view/1136121.
Acesso em: 19 maio 2026.
CUSTÓDIO,
Nathália Meloni; RODRIGUES, Alessandra. Tecnologias e formação inicial docente:
o papel do professor formador na construção do pensamento crítico e da
cidadania digital. Revista Contexto & Educação, [S. l.], v. 38, n.
120, p. e12765, 2023. Disponível em: https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/contextoeducacao/article/view/12765.
Acesso em: 19 maio 2026.
ODELSKI,
D.; GIRAFFA, L. M. M.; CASARTELLI, A. de O. Tecnologias digitais, formação
docente e práticas pedagógicas. Educação e Pesquisa, v. 45, p. e180201,
2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ep/a/qGwHqPyjqbw5JxvSCnkVrNC/abstract/?lang=pt.
Acesso em: 19 maio 2026.
SCHERER,
R.; SIDDIQ, F.; TONDEUR, J. The technology acceptance model (TAM): a
meta-analytic structural equation modeling approach to explaining teachers’
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v. 128, p. 13-35, 2019. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0360131518302458.
Acesso em: 19 maio 2026.
VANEGAS,
O.; H. D, YASBELY, M. S. C.; MORRÁS, A. S. Tecnologia educacional na formação
de professores: uma revisão sistemática de competências, habilidades, modelos e
métodos. Ciências da Educação, v. 25, 2025. Disponível em: https://www.mdpi.com/2227-7102/15/8/1036.
Acesso em: 19 maio 2026.
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