Entre a técnica e a inteligência artificial: o que realmente significa ensinar com tecnologia?


Vivemos um tempo em que falar de tecnologia na educação parece inevitável. Novas plataformas surgem constantemente, ferramentas digitais são incorporadas às aulas e, mais recentemente, a inteligência artificial passou a ocupar espaço nas discussões pedagógicas.

Uma inquietação encontra eco nas reflexões do filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto, especialmente em sua obra O Conceito de Tecnologia. Ao discutir a relação entre técnica e tecnologia, o autor nos convida a olhar além dos instrumentos. Para ele, a técnica diz respeito ao saber-fazer humano, às práticas que desenvolvemos para transformar o mundo. Já a tecnologia surge quando passamos a refletir criticamente sobre essas técnicas, compreendendo suas implicações sociais, culturais e históricas.

Essa perspectiva é especialmente relevante quando pensamos na presença das tecnologias digitais nos processos de aprendizagem. Na tese A aprendizagem das crianças na cultura digital, o pesquisador Fernando Silvio Cavalcante Pimentel mostra que as crianças de hoje crescem imersas em uma cultura profundamente marcada pelas mídias digitais. Nesse contexto, aprender não se limita ao espaço da sala de aula tradicional. A aprendizagem acontece em múltiplos ambientes, mediada por diferentes linguagens e tecnologias, em que os sujeitos interagem, experimentam e produzem conhecimento de formas cada vez mais dinâmicas.

Ao observar essas transformações, torna-se evidente que as tecnologias digitais não são apenas ferramentas auxiliares do ensino, e é justamente nesse ponto que as reflexões desses autores dialogam diretamente com minha tese de doutorado no programa RENOEN, intitulada “O uso da Inteligência Artificial Generativa como recurso didático no ensino superior em saúde: potencialidades e desafios curriculares”. Nesse sentido, pensar o uso da inteligência artificial no ensino superior em saúde exige ir além do fascínio pelas ferramentas digitais. É necessário refletir sobre como esses recursos podem contribuir para a formação de profissionais capazes de lidar com problemas complexos, tomar decisões éticas e atuar em contextos cada vez mais mediados por tecnologias, buscando a confiabilidade da informação, a autonomia discente e a formação docente.

O mapa conceitual a seguir sintetiza as relações discutidas neste texto, articulando as contribuições de Álvaro Vieira Pinto em O Conceito de Tecnologia, as reflexões de Fernando Silvio Cavalcante Pimentel em A aprendizagem das crianças na cultura digital e as problematizações presentes na minha tese de doutorado sobre o uso da Inteligência Artificial Generativa no ensino superior em saúde. A representação visual busca evidenciar como técnica, tecnologia, cultura digital e práticas pedagógicas se interconectam, contribuindo para uma compreensão crítica do papel das tecnologias no ensino contemporâneo.

 

 

Mais do que apresentar respostas definitivas, essa reflexão busca abrir caminhos para pensar o ensino em um cenário em que tecnologia e aprendizagem se entrelaçam de maneira cada vez mais intensa. Afinal, talvez o maior desafio do ensino contemporâneo não seja simplesmente incorporar novas tecnologias, mas desenvolver a consciência crítica necessária para utilizá-las com sentido pedagógico e compromisso social.

Comentários

  1. Olá, profa. Alexsandra! Seu texto articula de forma muito consistente as contribuições de Álvaro Vieira Pinto e de minha tese/livro, mostrando que pensar tecnologias na educação exige ultrapassar a dimensão instrumental e avançar para uma compreensão crítica de seus sentidos sociais, culturais e formativos. Ao relacionar essas reflexões com sua tese sobre o uso da Inteligência Artificial Generativa no ensino superior em saúde, você demonstra um movimento importante de conectar teoria, contexto contemporâneo e objeto de pesquisa, evidenciando que o debate sobre tecnologia não se limita ao uso de ferramentas, mas envolve escolhas pedagógicas, éticas e curriculares.
    Como continuidade desse percurso investigativo, vale aprofundar ainda mais o diálogo entre esses referenciais teóricos e os desafios concretos da formação em saúde mediada por tecnologias digitais. Nesse sentido, fica uma provocação para seus próximos estudos: se a tecnologia deve ser compreendida criticamente como expressão histórica e social da técnica, de que maneira a inteligência artificial pode transformar não apenas as ferramentas de ensino, mas também as próprias concepções de conhecimento, autoria e aprendizagem no ensino superior em saúde?

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