Tecnologias digitais e inovação educacional: repensando o ensinar e o aprender na universidade
Vivemos um tempo em que as
tecnologias digitais deixaram de ser novidade para se tornar parte do nosso
cotidiano, assim podemos encontrá-las nas relações, no trabalho, na forma como
nos informamos e, inevitavelmente, na maneira como ensinamos e aprendemos. Diante
dessa presença cada vez mais intensa, surge uma inquietação que não pode ser
ignorada: estamos realmente inovando na educação ou apenas revestindo práticas
antigas com novas ferramentas?
Ao dialogar com autores como Pimentel,
Blikstein, Campos e Masetto, torna-se cada vez mais evidente que inovação
educacional não se resume à presença de tecnologias em sala de aula. Inserir
plataformas, aplicativos ou ambientes virtuais pode até modificar a forma, mas
não garante, por si só, transformação na essência do processo educativo.
A verdadeira inovação acontece
quando há mudança de sentido. Quando a tecnologia deixa de ser apenas suporte e
passa a provocar deslocamentos: da centralidade do professor para o protagonismo
do estudante, da transmissão de conteúdos para a construção ativa do
conhecimento, da passividade para a participação. É nesse movimento que o
ensino começa, de fato, a se transformar.
Durante a aula da
disciplina de Tecnologias Digitais no Ensino, o professor Fernando Pimentel nos convidou a ir além da
escuta passiva a partir de provocações instigantes, conduzindo o grupo a refletir
criticamente sobre o uso das tecnologias no ensino, propondo os questionamentos
a seguir como eixo de análise. As respostas, por sua vez, foram orientadas
pelas leituras de autores como Pimentel, Blikstein,
Campos, Gikandi
e Al-Harthi, ampliando o debate e
fortalecendo o diálogo entre teoria e prática.
1) Até que ponto a incorporação
de tecnologias digitais pode ser considerada inovação educacional? Quais
critérios permitem distinguir entre o uso instrumental da tecnologia e mudanças
pedagógicas mais profundas no processo de ensino e aprendizagem?
A simples presença de tecnologias
digitais no ensino não garante inovação. Em muitos casos, o que vemos é apenas
a substituição de ferramentas: o quadro vira slide, o livro vira PDF, a aula
expositiva ganha um vídeo.
A inovação se materializa quando
a tecnologia transforma a experiência de aprendizagem, abrindo espaço para a
participação ativa, a autoria e a resolução de problemas reais. Nessa
perspectiva, Pimentel aponta que recursos como jogos digitais podem criar
ambientes de aprendizagem mais dinâmicos e interativos, aproximando os
estudantes de situações concretas e desafiadoras. Enquanto Blikstein e Campos
reforçam que a inovação ganha sentido quando o estudante deixa de ser
espectador e passa a atuar como protagonista na construção do conhecimento. Assim,
o critério é simples, e ao mesmo tempo exigente: não é a tecnologia que define
a inovação, mas a transformação pedagógica que ela é capaz de provocar.
2) Quem define se uma mudança
educacional é realmente inovadora? Como as diferentes percepções de gestores,
docentes e estudantes podem influenciar a avaliação de uma proposta de inovação
no ensino superior?
A inovação educacional não é um
conceito fechado, mas uma construção coletiva. O que parece inovador para a
gestão pode ser visto pelo professor como mais uma adaptação necessária, e para
o estudante, pode ser percebido como algo interessante ou completamente
irrelevante.
Para Masetto, inovar está
profundamente ligado à postura reflexiva do docente, à sua capacidade de
questionar, reinterpretar e transformar sua própria prática. Mas essa não é uma
construção solitária. Estudos de Gikandi mostram que a percepção dos estudantes
também é decisiva, especialmente quando as tecnologias ampliam interação,
feedback e participação.
Reconhecer a inovação, portanto,
não é um ato individual, mas um processo de interpretação compartilhada,
atravessado por experiências, expectativas e contextos distintos.
3) Quais condições
institucionais, pedagógicas e culturais precisam existir para que tecnologias
digitais contribuam efetivamente para processos de inovação educacional? De que
forma essas condições podem favorecer ou limitar transformações mais significativas
na universidade?
A inovação não nasce apenas da
vontade de mudar, disponibilizar tecnologias é importante, mas insuficiente.
Sem infraestrutura adequada, formação docente contínua e abertura institucional
para experimentar, o uso das tecnologias tende a permanecer superficial, sem
alcançar seu potencial transformador.
Inovar exige ambientes que
valorizem o diálogo, a colaboração, a experimentação. Nesse sentido, Al-Harthi
destaca a importância da chamada agilidade inovadora: a capacidade das
instituições de se adaptarem continuamente às mudanças sociais e tecnológicas. Universidades
que cultivam essa flexibilidade tendem a avançar. Já aquelas que permanecem
presas a estruturas rígidas acabam, muitas vezes, apenas incorporando
tecnologias de forma superficial, sem promover mudanças significativas.
No fim das contas, segundo os
autores, as tecnologias não determinam a inovação, elas apenas abrem
possibilidades. O que define o caminho é a forma como a universidade escolhe
percorrê-lo.
As discussões aqui apresentadas apontam para uma compreensão essencial: inovação educacional não se confunde com modernização tecnológica. Trata-se de algo mais profundo, que envolve repensar práticas, relações e sentidos no processo de ensinar e aprender. As contribuições de Pimentel, Blikstein, Campos e Masetto convergem ao reforçar que a inovação emerge quando há intencionalidade pedagógica, protagonismo discente e abertura institucional para a mudança.
Referências:
PIMENTEL, F. S. C. P. Jogos Digitais, inovação e ensino na
Saúde. In.: PIMENTEL, F. S. C.; SILVA, A. P. (Orgs.). Tecnologias digitais e
inovação em educação: abordagens, reflexões e experiências. São Carlos: Pedro
& João Editores, 2023. p. 23-42. Disponível em: https://arquivos.pedroejoaoeditores.com.br/wp-content/uploads/2022/12/03170224/EBOOK_Tecnologias-digitais-e-inovacao-em-educacao.pdf
Acesso em: 9 mar. 2026.
CAMPOS, R. de; BLIKSTEIN, P. Inovações radicais na educação
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MASSETO, M. T. Inovação educacional e formação de
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Acesso em: 9 mar. 2026.
AL-HARTHI, A. S. Innovation agility and its role in
advancing educational outcomes. International Journal of Open and Relevant
Education Research, v. 1, n. 1, 2023. Disponível em: https://journal.ia-education.com/index.php/ijorer/article/download/1166/932.
Acesso em: 9 mar. 2026.
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