Fundamentos Teóricos das Tecnologias Digitais

 

 

Quais são as principais diferenças epistemológicas entre o uso instrumental da tecnologia (o "repositório de arquivos") e a integração tecnológica fundamentada em modelos como TPACK e SAMR para a redefinição de tarefas pedagógicas?


A principal diferença entre o uso instrumental da tecnologia, entendido como “repositório de arquivos”, e a integração fundamentada em modelos como TPACK e SAMR reside na própria concepção de conhecimento e aprendizagem.

No uso instrumental, a tecnologia é compreendida como um meio neutro, voltado à transmissão e armazenamento de informações. Trata-se de uma perspectiva alinhada a uma epistemologia conteudista e transmissiva, na qual o conhecimento é visto como algo pronto, que deve ser depositado no aluno. Ambientes virtuais, nesse caso, funcionam apenas como extensões digitais da sala de aula tradicional (ex.: PDFs, slides, vídeos gravados), sem alteração significativa nas práticas pedagógicas. Essa lógica é criticada por Valente (1999), ao apontar que o simples uso do computador não garante compreensão, mantendo-se o foco no “fazer mecânico” em detrimento do “compreender”.

Em contraposição, a integração tecnológica fundamentada em modelos como o TPACK e o SAMR implica uma mudança epistemológica profunda, na qual o conhecimento é construído de forma ativa, contextualizada e relacional. O modelo TPACK, proposto por Matthew e colaboradores (2013), rompe com a visão fragmentada dos saberes ao defender a articulação entre conteúdo, pedagogia e tecnologia. Nesse caso, a tecnologia deixa de ser acessória e passa a constituir a prática pedagógica, influenciando o modo como o conteúdo é ensinado e compreendido.

Já o modelo SAMR, Puentedura (2010), explicita níveis de integração tecnológica, sendo que apenas nos níveis mais avançados (modificação e redefinição) ocorre uma transformação efetiva das tarefas pedagógicas. Nesses níveis, a tecnologia possibilita novas formas de aprender, antes inconcebíveis, o que revela uma epistemologia construtivista, interacionista e inovadora.

Essa perspectiva é reforçada por Dakich (2014), ao afirmar que a integração das tecnologias demanda uma base epistemológica que considere o papel ativo do sujeito na construção do conhecimento. Assim, a diferença central está em que:   

  • Uso instrumental: tecnologia como suporte técnico; conhecimento como transmissão; aprendizagem passiva.

·  Integração transformadora (TPACK/SAMR): tecnologia como mediadora cognitiva; conhecimento como construção; aprendizagem ativa, situada e significativa. 

 

Quais perspectivas teóricas fundamentam a criação de ambientes virtuais que priorizam o diálogo, a interação e a formação de redes de conhecimento em oposição ao modelo de transmissão passiva de informações?

 

A criação de ambientes virtuais centrados no diálogo, na interação e na formação de redes de conhecimento é sustentada por um conjunto de perspectivas teóricas que se opõem ao modelo transmissivo tradicional.

A base dessa mudança pode ser compreendida a partir da cibercultura de Lévy (1999), que introduz a ideia de inteligência coletiva, na qual o conhecimento é distribuído e construído colaborativamente em rede. Essa visão rompe com a centralidade do professor como único detentor do saber e valoriza a participação ativa dos sujeitos.

Em continuidade, o conectivismo de Siemens (2005) propõe que a aprendizagem ocorra por meio da formação de conexões entre pessoas, informações e sistemas digitais. Nessa perspectiva, saber aprender é saber conectar-se, selecionar e atualizar conhecimentos em redes dinâmicas, o que fundamenta ambientes virtuais interativos e abertos.

No campo pedagógico, Laurillard (2002) contribui com o framework conversacional, no qual o aprendizado resulta de um processo dialógico entre professor e estudante. A tecnologia, nesse contexto, atua como mediadora das interações, possibilitando feedback, reflexão e reconstrução do conhecimento.

Essa abordagem dialoga diretamente com Pimentel (2013), que enfatiza a importância da tutoria on-line interativa, baseada na mediação, no acompanhamento e na promoção de interações significativas. Para o autor, o ambiente virtual deve favorecer múltiplas formas de interação (aluno-professor, aluno-aluno, aluno-conteúdo).

Além disso, Pimentel e Carvalho (2020) defendem princípios da educação on-line que priorizam o engajamento, a autoria e a colaboração, evitando práticas massivas e passivas. Esses princípios reforçam a necessidade de desenhar experiências educativas que promovam participação ativa e construção coletiva.

Por fim, essas perspectivas convergem com a crítica de Valente (1999), ao modelo tradicional, ao defender uma educação voltada para o “fazer com compreensão”, mediada por tecnologias que ampliem as possibilidades cognitivas dos estudantes.

 

Bibliografia Básica

KOEHLER, M. J.; MISHRA, P.; CAIN, W. What is Technological Pedagogical Content Knowledge (TPACK)? Journal of Education, 2013. Disponível em: https://www.matt-koehler.com/publications/Koehler_et_al_2013.pdf.

SIEMENS, G. Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age. International Journal of Instructional Technology and Distance Learning, 2005. Disponível em: https://auspace.athabascau.ca/bitstream/handle/2149/2867/Connectivism%20-%20Connecting%20with%20George%20Siemens.pdf.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. (Capítulos 4 e 6).

PIMENTEL, Fernando Silvio Cavalcante. Uma visão múltipla da interação em direção à tutoria. In: ______. Interação on-line: um desafio da tutoria. Maceió: Edufal, 2013. cap. 1, p. 23-49.

PIMENTEL, Mariano; CARVALHO, Felipe da Silva Ponte. Princípios da Educação Online: para sua aula não ficar massiva nem maçante! SBC Horizontes, 23 maio 2020. Disponível em: https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/05/principios-educacao-online/.

 

Bibliografia Complementar 

LAURILLARD, D. Rethinking University Teaching: A Conversational Framework. Routledge, 2002. Disponível em: https://www.scribd.com/document/704783876/Conversational-Framework-of-Laurillard.

PUENTEDURA, R. SAMR: A Brief Introduction. 2010. Disponível em: https://www.scribd.com/document/891040863/Samr-Model-1.

DAKICH, Eva. Theoretical and Epistemological Foundations of Integrating Digital Technologies in Education. In: Reflections on the History of Computers in Education. Springer, 2014. Disponível em: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-642-55119-2_10.

VALENTE, José Armando. Mudanças na sociedade, mudanças na educação: o fazer e o compreender. In: O computador na sociedade do conhecimento. Campinas, SP: UNICAMP/NIED, 1999.


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